Arthur nasceu com uma coisa crescendo dentro do rosto. Começou do tamanho de uma moeda e hoje tomou o lado direito inteiro, fechou esse olho e mudou o jeito dele falar.
Faz dois anos que ele não enxerga desse lado.
Nos últimos meses, cresceu rápido demais. Se continuar, chega no olho esquerdo.
A fila pra tratar isso demora anos. Mas o Arthur não pode esperar anos.
Em casa são três. O pai, Jonas, é catador: sai às cinco da manhã empurrando o carrinho e ganha por quilo. Tem dia que não dá quarenta reais.
A Clara tem cinco anos, tem uma condição severa e não deixa ninguém chegar perto, só o Arthur. A mãe deles se foi no parto dela.
O Arthur também nasceu sem a perna direita. Anda com uma muleta que o Jonas achou num saco de entulho, lavou no quintal e enrolou um pano no apoio. É a mesma desde os onze anos.
Sem a perna, ele aprendeu a viver. O rosto é que tem prazo.
Existe uma operação que pode fazer isso parar. Custa mais do que o Jonas junta em vinte anos empurrando aquele carrinho.
O Arthur segura aquela casa desde os dez anos. Cuida da irmã de dia e estuda de noite, quando ela dorme. Nunca pediu nada.
Agora chegou num ponto em que a força dele sozinha não alcança.
A virada dele pode começar aqui embaixo: